Quando a ansiedade deixa de proteger e passa a aprisionar

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Ansiedade e psicoterapia: quando o cuidado se transforma em sofrimento

A ansiedade costuma ser descrita como um problema a ser eliminado. Mas, na experiência vivida, a ansiedade é uma reação natural a situações de risco, desafio, ou incerteza.

Muitas pessoas chegam à terapia dizendo que estão ansiosas: corpo tenso, mente acelerada, sono fragmentado, sensação constante de alerta. Outras dizem que “sempre foram assim”: preocupadas, antecipando cenários, tentando prever riscos. Em comum, há um sofrimento, um cansaço profundo, como se viver tivesse se tornado uma tarefa exaustiva.

A ansiedade é uma forma do corpo e da existência tentarem se proteger.

A ansiedade como sinal de que merece cuidado

Em seu sentido mais básico, a ansiedade é uma resposta à incerteza. Ela surge quando algo importante está em jogo: uma decisão, uma perda possível, uma mudança, um vínculo que pode falhar. Nesse sentido, ela não é inimiga — é um modo de atenção ao mundo.

A ansiedade nos mantém vigilantes, ajuda a antecipar perigos, organiza o cuidado com aquilo que importa. Em pequenas doses, ela sustenta a vida cotidiana: prepara para uma conversa difícil, para um desafio profissional, para atravessar situações novas.

O problema começa quando essa função protetiva se intensifica a ponto de não permitir mais descanso, e ficamos sempre em alerta.

Quando a proteção se transforma em aprisionamento

Em muitos casos, a ansiedade deixa de estar ligada a uma situação concreta e passa a ocupar todo o campo da experiência. O corpo permanece em estado de alerta mesmo quando não há uma ameaça imediata. O futuro se impõe como uma sequência interminável de “e se…”.

Nesse ponto, a ansiedade já não protege, ela aprisiona.

A pessoa começa a evitar situações, conversas, escolhas. Não por falta de desejo, mas porque o custo emocional parece alto demais. O mundo vai se estreitando: menos encontros, menos espontaneidade, menos margem para o imprevisto. Viver passa a exigir controle constante.

Frequentemente, esse movimento vem acompanhado de culpa: “eu deveria dar conta”, “outras pessoas conseguem”, “isso é exagero meu”. A ansiedade, então, se soma à autocrítica, tornando o sofrimento ainda maior.

O corpo como lugar onde a ansiedade se revela

Embora muitas vezes seja descrita como um fenômeno “mental”, a ansiedade se manifesta sobretudo no corpo. Respiração curta, aperto no peito, tensão muscular, taquicardia e vários outros desconfortos difusos.Esses efeitos não são falhas do organismo, são modos de expressão. Escutar esses sinais não significa se render à ansiedade, mas reconhecer que algo no modo de viver talvez esteja exigindo revisão.

A preocupação constante não resolve a situação, mas mantém a pessoa em estado de alerta permanente.

A ansiedade não surge do nada

Importante dizer que a ansiedade intensa tem história, como um excesso de tensão sustentada por muito tempo. Ela pode estar ligada a contextos de exigência excessiva, responsabilidade precoce, medo de decepcionar ou experiências de perda e instabilidade. 

Nesses casos, a ansiedade não é apenas um sintoma individual, mas uma resposta a modos de relação e de existência que se tornaram difíceis demais de se lidar. E então surgem pensamentos catastróficos, medo de reviver uma situação difícil, preocupação excessiva como quem espera sempre o pior. 

A mente retorna repetidamente aos mesmos cenários, como tentativa de evitar o imprevisto. Por isso, é muito comum fugirmos de situações assim, e, fugindo, não conseguimos desenvolver repertório necessário para lidar com essa experiência.

O lugar da psicoterapia

A psicoterapia oferece um espaço para que a experiência possa ser compreendida com mais cuidado. Perguntar “por que sou ansioso?”, costuma levar a becos sem saída. Perguntar “o que minha ansiedade tenta sustentar?”, abre outras possibilidades de compreensão.

Ao longo do processo terapêutico, a ansiedade será acolhida como um fenômeno que carrega sentido. Em vez de combatê-la imediatamente, busca-se entender como ela se constituiu, o que a mantém, o que ela tenta proteger e o que ela limita.

O paciente, num ato de autoconhecimento, começa a reconhecer os sinais da ansiedade, percebe como o corpo reage, em que situações o alerta se aciona e quais as exigências internas estão em jogo naquele momento.

Mais presente, em vez de responder automaticamente com tensão, evitação ou fuga, passa a experimentar outras possibilidades de ação mais ajustadas e menos guiadas pelo medo antecipatório. Muitas vezes, a ansiedade diminui não porque foi “combatida”, mas porque aquilo que a sustentava deixou de ser vivido como inevitável.

Além da autocompreensão, a psicoterapia também permite revisar ritmos de vida (sono, atividade física, respiração), desenvolver habilidades e estratégias para lidar com as crises, modos de se cobrar e formas de se responsabilizar por tudo e por todos. Portanto, a psicoterapia não é apenas um trabalho de reflexão acerca da experiência vivida, é um trabalho concreto com a experiência.

Um convite ao cuidado

Se a ansiedade tem ocupado espaço demais na sua vida, olhar com atenção para isso pode ser o primeiro gesto de cuidado.

Entre em contato comigo, e vamos iniciar seu processo de psicoterapia.

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